Mar de Posídon, mar de Iemanjá
Jornal Plásico Bolha 07/12/2008
ou vamos beber Calcanhotto
Após uma incursão pelo heterônimo Partimpim (2005), o cd Maré (Sony-BMG, 2008) traz de volta o ortônimo Calcanhotto e mais uma vez o mar como tema. Durante a temporada portuguesa do show Maré, a cantora vivenciou um surto psicótico devido a um coquetel de remédios, relatado em primeira pessoa em seu livro de estréia Saga Lusa (Cobogó, 2008). Phármakon, traduzido para latim por medicamentum, significa qualquer substância por meio da qual se altera a natureza de um corpo, daí veneno, droga e também remédio. Segundo Jacques Derrida “o phármakon, mesmo usado para fins terapêuticos como um remédio, não é inofensivo”. Em Saga Lusa ocorrem duas viagens: uma química que leva à alteridade, outra “em alto-mar, a meio caminho entre a Europa e a América” que traz a ipseidade. Se Odisseu, após sua viagem, precisa se fazer conhecer para os seus; Calcanhotto, para si mesma. Mas sobre o livro falaremos em nossa próxima coluna. Voltemos ao cd. Assim como a contemplação do mar nos convida a navegar, do mesmo modo Maré, seria a carta de navegação de Calcanhotto por toda sua polissemia. Limitar-nos-emos ao mar mitológico, ao mar de Posídon, ao mar de Iemanjá e ao imaginário marítimo.
Pelo que se pode depreender da cosmogonia homérica na Ilíada, Oceano é um rio imenso que habita um espaço informe, anterior a existência do Céu e da Terra e Tétis, uma massa d`água que ainda não se diferencia muito de Oceano. A origem do mundo e dos seres relaciona-se, portanto, ao elemento hídrico cujos principais atributos são sua fluidez e dinamismo.
Nem a grande força do Oceano de corrente profunda
De onde todos os rios e todo mar
E todas as fontes e os poços profundos fluem
(Hom., Il., XXII, 95-97)
Como os deuses em Homero se revelam em suas ações e genealogias, Oceano se uniu a Tétis e gerou todos os seres conforme o verso “Oceano, gênese dos deuses, e a mãe Tétis” (Il., XIV, 201 e 302) Quando o mundo se organiza sob da ordem cultura, no centro dos principais acontecimentos, encontra-se Zeus exercendo o princípio de soberania e fecundação, por isso Oceano e Tétis, o casal original segundo Homero, passam a viver na periferia do universo e não mais dormem juntos. Por terem perdido seu poder de geração, tornaram-se deuses ociosos. Zeus, no entanto, divide o poder com seus dois irmãos: a Hades coube o mundo ctônio e a Posídon, o mar. Há, na mitologia grega, muitas divindades associadas aos rios e ao mar, mas é justamente a partilha do universo que outorga a Posídon a soberania das águas salgadas simbolizada pelo seu tridente. Os navegadores sacrificavam ao deus touros em prol de travessias seguras pelas vias úmidas de Posídon e os pescadores de atum consagravam-lhe oferendas em alto mar e ofertavam-lhe as primícias de suas pescas. Com a nereida Anfitrite, rainha do mar, gerou Tritão, um ser híbrido, um homem-peixe, representado por uma concha, kókhlos, que também serve de instrumento de sopro. Existe em grego um outro vocábulo para concha, kónkhe, que por empréstimo lingüístico corresponde ao latim concha, -ae. Os meninos levando essas conchas aos ouvidos acreditam ouvir o rugir do mar e suas ondas. Em seu simbolismo, as conchas evocam as águas e seus sons.
Na Nigéria, Iemanjá, mãe dos peixinhos, (< yeye, mãe + omon, diminutivo de animais + edja peixe), uma grande-mãe africana, filha de Olocum, divindade dos mares, era o orixá do rio Ogum. Com o advento dos iorubás no Brasil, seu culto foi transposto para o mar, tornando-se assim a deusa das águas salgadas e também protetora dos homens mar e Oxum, orixá do rio homônimo, a deusa das águas doces. No entanto, a saudação ritual de Iemanjá, Odoiá, mãe do rio, (< odo, rio + ya, mãe) conserva sua relação original com o rio. O sincretismo religioso também foi responsável pela sua associação com as sereias européias seirênes, as que encadeiam, atraem < seirá, -âs, corda, laço, armadilha, segundo Carnoy e as iaras ameríndias < yara em tupi senhora, sereias dos rios e lagos. Segundo Agenor Miranda Rocha, o professor Agenor, é de Iemanjá que “vêm todas as águas da Terra”.
No segundo cd da trilogia dedicada ao mar, de seu maior poeta Dorival Caymmi, Calcanhotto escolheu Sargaço Mar acompanhada ao violão por Gilberto Gil. O eu da canção de Caymmi está diante de uma “doida canção” que num jogo de palavras e sonoridade com odoiá, saudação ritual à deusa, já prefigura sua natureza divina. Concluída essa canção, só lhe resta então alucinado lançar-se ao mar para viver em unicidade e em uníssono com Iemanjá. Curiosamente, o verbo alucinar do latim (h)allucinari é um derivado do grego (h)alúein, estar perturbado, perplexo. Sabe-se que o poder de sedução da palavra cantada na Antigüidade tinha como paradigma o canto das sereias. O canto de Calcanhotto segue os três movimentos que a própria canção sugere, por isso transcrevemos a canção como consta no encarte do cd, acrescentado-lhe a numeração dos versos.
Quando se for
Esse fim de som
Doida canção
Que não fui eu que fiz
Verde luz verde cor 5
De arrebentação
Sargaço mar
Sargaço ar
Deusa de amor, deusa do mar
Vou me atirar, beber o mar 10
Alucinado, desesperar
Querer morrer para viver
Com Iemanjá
Iemanjá, Odoiá
Iemanjá, Odoiá 15
Iemanjá, Odoiá
Do verso um ao doze, encontramos o eu diante da doida canção da deusa. A inversão do atributo doida no sintagma, contrariando-lhe a ordem natural em português enfatiza sua espécie e ao mesmo tempo a caracteriza em sua diferença com as canções e harmonias humanas, conservando-se, porém na clave da sensação. O poeta fabrica sonoramente seu poema de modo a idear a canção e presentificá-la por meio de aliterações das sibilantes e fricativas surdas e sonoras; de repetições dos vocábulos verde, sargaço e deusa, conferindo-lhe ritmo; das rimas, de ecos e também da quebra da expectativa, até o quinto verso só há vocábulos monossílabos ou dissílabos, inclusive o quarto verso, um hexassílabo composto apenas por monossílabos “Que/ não/ fui/ eu/ que/ fiz” contrasta com o sexto, um pentassílabo “De a/rre/bem/ta/ção” com um único vocábulo polissílabo, enfim a linguagem se fazendo música divina. O segundo movimento se compõem apenas do décimo terceiro verso “Com Iemanjá” em que pela primeira vez é dito o nome Iemanjá, presentificando seu ser numinoso. Em seu canto, Calcanhotto imprime a cada nota a mesma duração ressaltando-o. O terceiro, o refrão, “Iemanjá, Odoiá”. Adriana Calcanhotto como cantora e compositora sabe que essa canção não carece de arranjo, basta-lhe apenas um violão para evidenciar as palavras e melodia de Caymmi e o seu próprio canto e emissão. Em Maritmo (Columbia, 1998), o primeiro cd da trilogia, Calcanhotto já gravara em dueto com próprio Caymmi, Quem vem pra beira do mar em que se evidencia o irresistível e fatal chamado das águas de Janaína.
Sargaço Mar, a última canção do cd, dialoga tanto com a de Péricles Cavalcanti Porto Alegre (Nos Braços de Calipso) vista em nossa última coluna numa relação de ruptura com o relato homérico, quanto com a primeira Maré de Moreno Veloso e Adriana Calcanhotto em que o mar representado como imagem e linguagem se justapõe ao mar evocado por meio do canto de uma de suas sereias. O cd a partir de seu título contém uma ambivalência, isto é, pode ser lido tanto como Maré, o movimento das águas do mar salgado, quanto Mar é deixando ao ouvinte todas as suas possibilidades de predicação, além das apresentadas na carta de navegação de Calcanhotto e termina com uma evocação ritual a uma de suas deusas, Odoiá Iemanjá, Odoiá. Adriana Calcanhotto apresentou o show Maré apenas em um final de semana de junho no Rio de Janeiro. Ficamos todos aguardando sua volta.
Antonio Mattoso
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