Adriana Calcanhotto
Música Popular Brasileira Hoje / PubliFolha 11/09/2002
Tem um jeito recorrente de ela deixar a nota às vezes escorregar em algum ponto da frase melódica. Não que seja um recurso exclusivo, nem o mais aparente. Mas esse glissando ocasional, dentro da emissão sempre clara da voz de Adriana Calcanhotto (1965 - ), é uma das passagens secretas por entre corredores lingûístico-melódicos que nos colocam em contato com as personagens de seu repertório, quase sempre instáveis, eroticamente pela metade, meio atordoadas mas ainda firmes em sua fragilidade.
Essa última característica não estea apenas nas baladas-hit como “Naquela Estação” – seu primeiro sucesso, no início dos anos 90 – “Metade”, e “Vambora”, ou nas reinterpretações de canções que marcaram a música radiofônica brasileira com Leno e L´lian, roberto Carlos e Titãs. É mais uma espécie de princípio ativo de seu trabalho que também funciona ao inverso.
Pode-se falar de uma afirmatividade geral, que procura sempre que possível a evidência – exemplar em “Senhas” ou “Por que Você Faz Cinema?”, mas que se espraia para além dessa classe de composições – manifesto, por todo o repertório. Mirando o grau máximo da propriedade comum a todo canto: dar a ver o que nomeia. Porém, em função da colocação da voz, da letra, do arranjo, é uma afirmatividade raramente tranqüila, que possui, fechando o círculo, algo frágil em sua firmeza.
A eficácia com que tudo isso chega até nós tem a ver com a insistência de Adriana, a partir do segundo disco – de 1992, quando estva com 27 anos - , em lidar com poetas, compositores e músicos como Antonio Cicero, Waly Salomão, Péricles Cavalcanti e Sacha Amback, ainda que nela a autoria seja um dado determinante. Adriana faz as canções, define as interpretações, colabora nos arranjos e se responsabiliza pelo projeto gráfico de seus discos e pela direção geral de seus shows. Sempre equilibrando acabamento e risco, como se pulasse com o arterial ligado em João Gilberto e o venoso em Nelson Cavaquinho.
Para não falar da abilidade que ela tem de tornar poemas, de famílias estilísticas diversas, às vezes inimaginavelmente musicáveis (como “A Fábrica do Poema”, de Waly), em canções fluentes. O que nos leva ao assunto das citações de escritores, músicos, pintores e outros artistas no trabalho dela. Se algo de especial há nisso, não é a filiação, mas a irmanação: a capacidade que sua música tem de nos induzir a olhar não para eles, mas com eles e ela, na direção daquela abertura infinita que espera e reclama (como dizia Cortázar – que não está mas poderia traanqüilamente estar, entre os citados), ora parando para pensar na letra ou reparando só na sonoridade da voz e dos instrumentos, ora sentindo uma coisa sem nome, vontade-à-toa de dançar, súbiat alegria ou orfandade primeva, lembrança pessoal muito significativa ou sede de que tenhamos todos muito mais.
João Bandeira
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