Perguntas em forma de cavalo marinho *
04/2008

* Título roubado de um poema de Carlos Drummond de Andrade

Já a capa convida-nos para uma apreciação atenta, interessada. A beleza dá-se de modo radical. A maquiagem parece dizer inequivocamente que o rosto é também máscara. Por quê? A face ali é, a um só tempo, natural e inventada. Mulher e deusa, Adriana e Calipso, água e tinta, pele e tela. O olhar: destemor ou espanto? Para que águas tal enigma convida?

Vinicius de Moraes cunhou no célebre poema “O dia da criação” uma imagem tão simples quanto eloqüente: “a vida vem em ondas como o mar”. Foi nisso que pensei ao ouvir o novo álbum de Adriana Calcanhotto, Maré.

Nele, a paisagem é menos a descrição de uma determinada ambiência que o elemento de composição de uma metáfora cujo motivo central é a vida. Ou seja, o mar, ritmo-imagem, serve como matéria para produtos imaginários que expressam movimento, fluxo, tempo, física, transmutação, música, destino, improviso, desejo, melancolia, morte. O mar é aqui, portanto, mais que cenário. São as qualidades marinhas que parecem emergir das canções, do canto, dos arranjos.

Assim, livre dos limites da simples paisagem, poderia dizer que o tema de Maré é o destino dos homens.

E, então, é por tudo iluminadora a presença de “Porto Alegre”, canção de Péricles Cavalcanti, deliciosa e bem humorada recriação de uma passagem da mitologia grega. A letra, em primeira pessoa, traz a voz de Ulisses, mas que, em vez de resistir aos encantos da ninfa Calipso, entrega-se irresponsavelmente a ela e ao calipso, o ritmo caribenho. Porém, se erotismo e alegria surgem ali como destino do homem, na outra ponta extrema está a imobilidade de “Sem saída”, poema de Augusto de Campos musicado por Cid Campos. Em Maré, aparecem indissociáveis e em fluxos contínuos estas duas praias, ou ainda, estes dois valores do mar-imagem: de um lado, a excitação diante das ondas, de sua musica em infinito convite para a aventura; do outro, a sensação de que mover-se ou estar parado são uma mesma coisa, uma mesma ilusão, donde uma consciência que se reconhece no bater monótono e sem sentido das ondas. Estes dois extremos cruzam-se de muitos modos, em marinhas de cores esbatidas aqui, em contrastes bruscos mais adiante, mas sempre em articulações complexas, inteligentes, inesperadas. São estes escoamentos de entendimento e perplexidade, de gozo e de dor que vêm em ondas em Maré, formando uma água única e bela.

I

Eucanaã Ferraz - Segundo você, Maré é o segundo álbum de uma trilogia iniciada por Maritmo (1998). O elo entre estes dois e o futuro trabalho é (será) a temática marinha? Ou, para além do tema, os trabalhos têm (terão) algo em comum também no nível mais propriamente musical?

Adriana Calcanhotto - É uma trilogia marítima, o mar é o elo. O mar de Caymmi, de Melville, de Mário Peixoto. O mar literário, artificial, metafórico, além do quântico. No Maritmo eu tinha idéias mais definidas para as levadas e climas musicais do que tive no Maré, onde preferi que as coisas, literalmente, fluíssem. Para o terceiro não tenho as canções, só o desejo de realizá-lo, musicalmente não sei o que vai acontecer, não tenho programa. Talve possa fazê-lo com ainda menos gente do que agora.

II

EF - É flagrante o quanto você se mantém firme na companhia de determinados parceiros. Basta ler as fichas técnicas dos seus discos e dos seus shows para ver a presença constante de determinados nomes – das canções aos cenários. Penso, por exemplo, nos diretores de cinema que gostam de trabalhar sempre com os mesmos atores. Na sua carreira, qual o sentido dessa espécie de eleição e de fidelidade? Ao mesmo tempo, você parece estar sempre alargando aquele círculo de parceiros com o acréscimo de novos nomes. Que bússolas guiam essa procura? E, ainda, no caso específico de Maré, nele qual a dinâmica desse círculo composto por companheiros antigos e recentes?

AC - Gosto do aprofundamento das relações com meus colaboradores, acho que a contribuição deles é que me interessa, não o compromisso com a fidelidade, embora eu seja fidelíssima, por convicção. Muitas vezes demoro pra decidir chamar alguém exatamente porque pretendo diálogos reais e enriquecedores e jamais chamaria alguém só por amizade, inércia ou qualquer outro motivo externo às motivações do projeto em questão. Aprendo muito com essas pessoas todas, cada vez mais, não vejo motivo para não estar com elas. São elas mesmas, muitas vezes, que trazem novos nomes para o círculo de colaboração. Nesse sentido, em Maré acho que consegui me repetir como nunca, rá, rá, rá.

III

EF - Este movimento de retorno e renovação (o vai-vem das marés...), que parece flagrante no âmbito de colaboradores, está presente em outras dimensões do trabalho realizado nesse novo disco? Ou melhor, em relação a seus trabalhos anteriores, o que permanece e o que se inaugura em Maré?

AC - O universo de autores não se alargou muito dessa vez, embora isso seja resultado do filtro, das peneiras que vou passando num conjunto que, dessa vez, se iniciou com aproximadamente 20 canções possíveis. Não faço listas de autores e sim de canções ou poemas e depois, acaba ficando muito claro, conforme sua denúncia, minha admiração por um tipo de universo. Permanecer ou cair do repertório tem a ver com a maneira com que as canções vão se comportando juntas e também com o resultado das gravações, tem algumas variáveis. Inaugura-se em Maré minha parceria com Dé, com Moreno, com Arnaldo Antunes (com esses escrevi canções), com Arto Lindsay, que produziu, com Aldo Brizzi e com mais alguns músicos com os quais eu ainda não havia trabalhado. Com Marisa Monte, Rodrigo Amarante e Jards Macalé, com quem já havia feito outras coisas, só houve estreitamento e confirmação.

IV

EF - Você pôs, lado a lado, em Maré, uma antiga parceria de Caetano e Ferreira Gullar (“Onde andarás”) e um poema musicado de Augusto de Campos (“Sem saída”, com música de Cid Campos). Penso que essa vizinhança criada por você equivale a uma espécie de relâmpago ensaístico sobre a poesia e a música no Brasil. Como você explicitaria, digamos, os princípios críticos deste seu gesto?

AC - Pensei muito a respeito, inclusive por ter Caymmi aí junto, se as pessoas iriam ler a mistura como total ignorância minha. Ou como provocação. Depois cheguei a conclusão de que é verdadeira pra mim essa junção, é legítima, orgânica, precisava dessas canções todas no meu projeto, o que posso fazer? Se há algum problema nisso, ele não é meu.

V

EF - Apesar do clima asfixiante e doloroso de “Sem saída” e da atmosfera delirante e mórbida de “Sargaço mar”, Maré parece-me um disco leve, solar. Ou, pelo menos, mais feliz e luminoso que Cantada (2002). Você concorda com essa minha impressão?

AC - Eu não estava nada luminosa quando gravei Cantada, talvez seja o que te dá essa (precisa) impressão. Aqui, no Maré, penso que estou lidando com um pouco mais de tranqüilidade em relação a certos assuntos. Em “Mulher sem razão”, por exemplo, cantei “nosso tempo é bom / e nem temos de montão” quando na letra original Cazuza diz “e nós temos de montão”, coisa que não posso mais dizer, sou uma senhora. Essa é uma das senhas do disco, por trás dessa mudança de sílaba está minha maneira de me relacionar com o fim nesse momento específico, em um disco de trilogia que já não é o primeiro. Talvez seja mais no som do que nas palavras que o disco se apresente mais leve e solar, pelo sopro de alegria e descompromisso que a intervenção dos músicos imprime.

VI

EF - Ao falar de “Sem saída”, você se refere ao dom que Cid Campos tem de “musicar poemas, às vezes muito complexos, aparentemente não musicáveis ou simplesmente loucos, e transformá-los em canções redondas e muito belas sem nada retirar de sua estranheza, pelo contrário.” Esta sua observação parece-me reveladora do modo como você encaminha seu trabalho desde o início de sua carreira: buscando constante e simultaneamente o “redondo” e o “estranho”. Embora sejam faces de uma mesma moeda (ou águas de uma mesma onda...), faça um esforço e me diga: o que há de “redondo” e de “estranho” em Maré?

AC - Minha sensação é a de que o redondo pode viabilizar o estranho nesses termos em que você coloca. Acho que tem a ver com aquele impulso que tive na adolescência, quando resolvi me aventurar pela música, acreditando que música redonda, que toca no rádio, pode levar para o rádio a alta (e estranha) poesia, sem privilégios de informação. Redondo pra mim é o que é claro, fluido, não obtuso, não codificado em excesso, ou enfim, codificado de maneira que o ouvinte que não possua determinados códigos, não fique, por isso, impossibilitado de usufruir do prazer de ouvir, não estará excluido. É uma questão de camadas de leitura, trabalho fascinante pra mim de realizar, se é que consigo, mas trabalhoso no sentido de que só o tempo é que arredonda. Encarangar as coisas não é difícil e endereçar mensagens para clubinhos fechados nunca me interessou. Gosto do trabalho de polimento, de lapidação, de tirar as coisas que sobram, no rumo da clareza, levo anos tecendo canções e discos com isso em mente. O que há de mais estranho em Maré? Pois, acho que eu mesma.

VII

EF - Você parece estar sempre se movendo pela curiosidade e pela vontade de aprender. Quando fala dos músicos, dos ensaios, das gravações, você deixa ver o quanto fazer um disco pode ser menos o registro de algo acabado que um processo de descoberta e aprendizagem. Como você descreveria esse processo no caso específico de Maré?

AC - Maré talvez seja o disco (com exeção de Enguiço) onde menos interferi na maneira dos músicos encararem as canções. Fiz escolhas, é claro, mas não propus coisas determinadas, anteriores, já pensadas, não fiquei dando sugestões. Estava voltando da turnê com Moreno, Domenico e Kassin, estávamos bastante sintonizados, então no estúdio nossos silêncios foram maiores e mais comunicativos do que costumam ser a maioria dos silêncios (e barulhos) de estúdio.

VIII

EF - Li, numa de suas entrevistas, que você não quer ser filiada a nenhuma corrente, mas que, de certo modo, aceitaria ser chamada de minimalista. Gostaria de ponderar, no entanto, que você, igualmente, mostra-se atraída pela intensidade e pelo excesso. Não por acaso, um de seus mais queridos, constantes e importantes parceiros foi Waly Salomão – barroco, torrencial, uma espécie de antiminimalista praticante. No caso de Maré – dedicado ao Waly – como se desenvolve essa tensão entre as economias do mínimo e do excesso?

AC - Lido com essa tensão com naturalidade, por temperamento e provavelmente também por ter crescido (ouvindo músicas completamente diferentes) em um mundo onde o Tropicalismo já existia e cujas conquistas, portanto, já eram irreversíveis; pra mim essa nunca foi uma grande questão. Minha ligação com Waly era, entre muitas outras coisas, de total fascínio, pela diferença, pelo oposto, pelo escancaramento. Pelo descaramento, por que não dizer? Não gosto do minimalismo estéril, estetizado, clean, a priori. Minha coisa é com a essencialização e tenho a impressão de que parto do excesso transbordante para o prazer e o divertimento de podá-lo, enquanto o tempo passa.

IX

EF - Você sabe nadar?

AC - Bem melhor do que sei dar entrevistas...

Eucannã Ferraz