Brincadeira de gente grande
Release da Temporada de estréia 06/05/2005
Adriana Partimpim ensinou que brincar de criança é coisa de adulto. Criatura rebelde, como o são, aliás, as melhores criaturas, tomou o lugar da criadora, Adriana Calcanhotto, em um dos discos de maior sucesso em 2004. Não satisfeita, sobe ao palco do Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, dando início em 21 de maio à temporada, nacional e internacional, de um show com cara e horário de criança (sábados e domingos às 17h) e produção de gente grande: canções inéditas, cenários de Hélio Eichbauer, figurinos de Isabela Capeto & Felipe Veloso e direção de cena de Hamilton Vaz Pereira.
“Estamos inventando cada detalhe do show, criando uma ambientação cênica própria para cada música”, conta Adriana. Por detalhe, entenda-se desde as delicadas correias de violão e guitarra que são parte inseparável do figurino às sonoridades deliciosamente inusitadas desenvolvidas na direção musical de Dé Palmeira, principal incentivador e parceiro do disco e, agora, também do show.
No roteiro estão, é claro, as dez canções de “Adriana Partimpim”, o disco, e oito outras que têm em comum a idéia, irresistível, de que música para criança é aquela que se faz e toca com o espírito de criança - e não necessariamente as canções compostas para o público infantil. No disco, é isso que aproxima “Lig-lig-lig-lé”, marchinha que fez muito marmanjo pular na década de 1930, da irresistível “Fico assim sem você”, hit de Claudinho e Buchecha no início do século XXI.
No show, “infância” tem a ver com o frescor e a simplicidade com que Adriana e os quatro músicos que a acompanham executam arranjos cheios de sutilezas e humor. Se o músico de jazz parece sempre estar trabalhando e astros de rock aproximam-se muitas vezes de um ritual ou transe, na terra de “Partimpim” todos eles estão, o tempo todo, brincando, com sorriso e cumplicidade que se costuma deixar de lado na chamada “vida adulta”.
Pois assim como criança transforma qualquer objeto em brinquedo, Adriana faz dos instrumentos brinquedos e, de alguns brinquedos, instrumentos. Além de percussão (Guilherme Kastrup), baixo (Dé Palmeira), guitarra (Ricardo Palmeira) e teclados (Marcos Cunha), o repertório de “Partimpim” é levado com caixinhas de música, pianinhos, jogos eletrônicos, reco-reco, celular de camelô, lixas e um irresistível sapo, que produz ruídos e se ilumina no escuro.
Nada disso, é bom lembrar, é estranho às vanguardas das mais variadas extrações, que de John Cage a Hermeto Pascoal mostraram o quanto se pode expandir o conceito de música. Não por um acaso, um destes criadores, Walter Smetak (1913-1984), também entra na roda de Partimpim.
Suíço que viveu no Brasil e, por aqui, influenciou decisivamente o tropicalismo em geral e Gilberto Gil em particular, Smetak compunha, dava aulas e, também, criava instrumentos. A partir de suas anotações, recentemente publicadas, Adriana construiu o “Pistom cretino”, instrumento de sopro que se resume a uma pequena mangueira de plástico com um funil em uma ponta e um bocal de trompete na outra.
É claro que no mundo infantil vanguarda e brinquedo são a mesma coisa, e os “sons cretinos” do pistom funcionam quase como sonoplastia em “Dono do pedaço”, um dos quatro poemas que Adriana musicou do livro “Um gato chamado Gatinho”, de Ferreira Gullar, e que apresenta agora pela primeira vez. Reunidas no show em um bloco felino – que inclui ainda “Ron ron do gatinho”, “Gato pensa?” e “O gato e a pulga” - as novas canções são uma brincadeira também musical, com rock, blues e techno, esta última trilha sonora de uma animada rave de pulgas.
Também foi incorporada à brincadeira, vinda da apresentação de Adriana com o Moreno +2 no Percpan, “Quando Nara ri”, parceria com Kassin em homenagem à filha dele, que nasceu no Japão e hoje vive em um fuso-horário muito diferente do pai. Completa a lista de inéditos no repertório “O mocho e a gatinha”, poema do inglês Edward Lear (1812-1888), um dos gênios do non-sense e dos jogos de linguagem, traduzido por Augusto de Campos e musicado por Cid Campos, dupla de pai e filho que repetem com o poeta inglês o que fizeram com Lewis Carroll em “Canção da falsa tartaruga”, também do repertório do disco.
No fundo, todo artista é parente próximo da criança ao reinventar o mundo em sons, palavras e imagens. “Partimpim” mostra isso também em dois clássicos, “O poeta aprendiz”, autobiografia poética de Vinicius de Moras musicada por Toquinho (que Adriana havia ilustrado num belo livro com CD editado em 2003 pela Companhia das Letrinhas) e na comovente “Acalanto”, que Dorival Caymmi dedicou à filha, Nana.
A criança que Adriana Calcanhotto busca neste show é a que vai dançar na platéia e, também, a que está em tudo o que é simples e, justamente por isso, complexo. Leveza conquistada em um árduo trabalho de depuração, “Partimpim” é a melhor prova de que brincar de criança é coisa de gente grande.
Paulo Roberto Pires
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