O pirlim-pim-pim de Adriana Partimpim
Revista Áudio Música e Tecnologia 09/10/2004


Vamos brincar de faz-de conta: se uma respeitada cantora brasileira fizesse um disco especialmente para crianças, regravasse nele canções tão díspares entre si quanto uma marcha carnavalesca dos anos 30 e um funk de Claudinho e Buchecha e ainda usasse um pseudônimo para vendê-lo? Imagina, impossível! Nem com pó de pirlim-pim-pim esta mistura daria certo. E com partimpim? Pergunte para Adriana Calcanhotto, a cantora mais carioca dos pampas que, para criar tal nomenclatura, não teve medo de se arriscar.
Mas a promessa não é recente. Desde 1999, Adriana prometia o audacioso disco para crianças, um projeto abortado porque, segundo ela, “quando ficou pronto, não estava pronto”. E neste sétimo álbum de carreira, que divide a produção com Dé Palmeira e Sacha Amback – e completa o time de músicos com antigos e novos colaboradores de peso, como Celso Fonseca, Daniel Jobim e Domenico - , optou apenas por interpretar canções de outros compositores.
De cara, na capa, é clara a mudança que o pirlim-pim-pim de Partimpim proporcionou à música de Calcanhotto: o bom humor. Ao iniciar a bolachinha, scratches anunciam a canção Lição de Baião, de Baden Powell, com levada a la Jorge Ben. “Tudo legal pra começar”, diz a letra. Em Oito anos, de Paula Toller, destaque para o pandeiro esperto do baterista e percussionista Marcelo Costa. Já a divertida marchinha Lig-lig-lig-lé mostra uma Adriana livre, à vontade para brincar com sua inconfundível voz.
Chega, então, a hora do funk-romântico Fico assim sem você adentrar o salão, abalar geral e colocar cachorras e gatinhas para improvisar um verdadeiro baile. Definitivamente, Partimpim não suporta ser apenas MPB ou simplesmente pop. Ela quer se ver livre da amarga sopa de letrinhas criada pelos que insistem em classificar o inclassificável. E por falar em sopa, a Canção da falsa tartaruga (no refrão, “que bela sopa”) não só dá um caldo como chega a aguar a boca de quem a ouve. As cinco músicas seguintes privilegiam o formato voz & violão, característica inerente a seu trabalho. Mesmo assim, Formiga bossa nova e Ciranda da bailarina receberam pitadas de seu novo pozinho mágico infanto-juvenil, como samples e som de caixinhas de música.
Para encerrar, Péricles Cavalcanti contribui com Ser de Sagitário; Domenico Lancellotti com Borboleta (não esquecendo é claro, que insetos são uma verdadeira paixão para Adriana, a Calcanhotto) e Arnaldo Antunes com a canção de ninar Saiba, que serve tanto para a mão que balança quanto para o berço.
Em suma, o disco Adriana Partimpim é recomendável para baixinhos, medianos e altinhos de todas as origens. Não fosse assim, não estaria no top das paradas musicais em Portugal. E, claro, só para chatear os mentecaptos, ela fez questão de classificar a própria obra:Classificação livre.

Rodrigo Sabatinelli