Para Adrianas e Partimpins
Zero Hora 30/09/2004
Adriana Partimpim, disco de Adriana Calcanhotto para crianças, não pára de tocar por aqui. Eu gosto, e muito. Mas quem gosta mesmo é o meu filho João.
Quando compramos o CD, Adriana Partimpim me pareceu tão lindo e lúdico para um adulto que eu senti vontade de correr de volta para a minha infância e ficar lá, quietinha embaixo duma mesa ouvindo Fico assim sem Você. Ou me vestir de dançarina com alguma velha camisola que minha mãe tivesse descartado e saracotear no meio da sala por duas horas inteiras ao som de Ciranda da Bailarina. Ou seja, achei Adriana Partimpim um disco para lembrar da infância.
Pois não é que meu filho me fez ver que eu estava errada? Adriana Partimpim não é uma infância perdida no tempo, é a infância inteira. Desde o primeiro momento que o João escutou a versão de Adriana para Oito Anos, da Paula Toller, Adriana Partimpim tornou-se o seu disco preferido. E atenção: até aquele momento, o meu pequenino de três anos nunca havia tido um disco preferido. Adriana Partimpim inaugurou uma coisa nova na vida do João: escolher trilha sonora. Agora temos Oito Anos para andar de carro - ele canta a toda voz "well, well, well, Gabriel" e ainda pede: "Mais alto, mamãe, mais alto!". Lig-lig-lig-lé, uma antiga marchinha de Carnaval de 1937, virou a música para pular em cima da nossa cama e dançar pelo quarto, geralmente depois que o papai chega do trabalho. Sendo música de Carnaval, Lig-lig-lig-lé é a trilha da bagunça, o que mostra que sua magia permanece intacta. Saiba, do Arnaldo Antunes, é para fugazes momentos de tranqüilidade, e o disco inteiro é para levar de um lado a outro, da sala para o quarto, daqui de casa para a casa da vovó.
Então que este texto é uma reverência a Adriana Calcanhotto. Voz linda, grandes composições, os adultos aqui do apartamento 701 adoram. Quanto à Adriana Partimpim (esse era o nome que a menina Adriana adotou na infância), ela merece os mesmos elogios, e mais um, pela sensibilidade de tocar a infância com tanta leveza e precisão. Naquela indefectível bolsa que a gente carrega quando vai passear com filho, junto com uma muda de roupas e um pacote de biscoitos para uma fomezinha fora de hora, agora vai também o Adriana Partimpim, sem ele o João não sai mais de casa. Avião sem asa, fogueira sem brasa, piu-piu sem frajola - o João é que está certo, vida sem música não tem graça nenhuma
Leticia Wierzchowski
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