Partimpim!
No.minimo 10/08/2004


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Adriana Partimpim é uma graça. Mais conhecida pelo apelido de Adriana Calcanhotto, ela passou um bom tempo na sombra, esperando a hora certa para lançar esse disco que leva seu nome e destina-se, pelo menos em princípio, ao público infantil. E ela é tão outra, tão original, que parece mesmo ter ganho a vida própria que a cantora gaúcha gosta de atribuir-lhe (www.adrianapartimpim.com.br). Em Portugal, onde sua criadora tem grande público e já lançou até um livro de letras, não sai da parada de sucesso. Aqui, saiu mais discretamente e, pelo menos para esta criança que vos digita, não deveria parar de tocar. Se as Adrianas, Calcanhotto ou Partimpim, fossem chegadas a um clichê, poderia-se dizer que este é um “disco para crianças de todas as idades”. Mas a maior característica dessas mocinhas é justamente a originalidade – que desde 1990 a primeira expressa em seis discos fundamentais e a mais novinha usa agora para bagunçar todas as convenções em dez faixas, meia horinha de uma viagem a um universo “infantil” no sentido da “Alice” de
Lewis Carroll, onde o mais importante é a liberdade absoluta e não a simplificação tatibitate.
Em “Cantada” (2002), último disco da Calcanhotto, “Ninar” celebrava, em versos concretos, o nascimento da afilhada da cantora gaúcha, num tom muito próximo ao que se ouve agora neste que é seu primeiro álbum exclusivamente como intérprete. O olhar infantil ficou mais evidente ainda na música e nos desenhos com que interpretou “O poeta aprendiz”, num livrinho dedicado exclusivamente ao poema de formação de Vinicius de Moraes. E deságua agora na delicadeza absoluta, cujo parente mais próximo é o genial “Samba pras crianças”, projeto idealizado e produzido por Zé Renato em que um coro infantil e grandes nomes como Yvonne Lara e Ney Lopes interpretam de um jeito moleque alguns clássicos do samba. É exatamente o jeito de cantar, puramente brincalhão, que amarra o
conceito de “Adriana Partimpim”, mas o filé está mesmo na seleção do repertório, a começar por “Lição de baião”, hilária canção de Jadir de Castro e Daniel Marechal pescada em “Violão na madrugada”, disco de Baden Powell de 1961 que o pai de Adriana costumava ouvir em sua infância. Cheia de scratches, batidão eletrônico e violão do filho de Baden, Louis Marcel, cai muito bem para festa de criança e pista de dança de marmanjo. Mas no capítulo arqueologia – onde aparece a inusitada “Formiga bossa nova”, do repertório de Amália Rodrigues (!!!!!) – é impagável “Lig-lig-lig-lé”, marchinha de carnaval de 1937 em que Oswaldo Santiago e Paulo Barbosa, seus autores, são a pura inocência de uma época em versos como “Chinês/come somente uma vez por mês/Não vai mais a Shanghai buscar a ‘baterflay’”. “Oito anos”, de Paula Toller e Dunga, brinca explicitamente com a mania de perguntar de toda criança e tem momentos irretocáveis: “Quanto é mil trilhões/vezes infinito/quem é Jesus Cristo/onde estão meus primos”. No repertório da canção popular, Adriana recria, no que é talvez a obra-prima de intérprete, “Fico assim sem você”, que se conhece do repertório de Claudinho e Buchecha e é chiclete de primeira linha com excelente melodia e a deliciosas comparações: “Amor sem beijinho / Buchecha sem Claudinho / Sou eu assim sem você”.
Com a liberdade absoluta que se concedeu, Adriana Partimpim também viaja
por latitudes mais “cabeça” com a excelente “Canção da falsa tartaruga”, versos de Lewis Carroll traduzidos por Augusto de Campos e musicados por seu filho, Cid Campos. Vai por aí “Borboleta”, de Domenico Lancelotti, “Saiba” de Arnaldo Antunes”, e “Ser de sagitário”, de Péricles Cavalcanti, todas muitíssimo boas e em boas versões, mas um pouco abaixo dos grandes momentos que destaquei.
At last, but not least, “Adriana Partimpim” deixa uma interpretação realmente antológica para “Ciranda da bailarina”, que ela mesma chama de “pérola de Chico Buarque e Edu Lobo”. Vem da trilha de “Grande circo místico” e é para ouvir em êxtase, num arranjo genial que mistura violão e baixo a caixinhas de música, ruídos, surdo, num delicado caos sonoro que, talvez, seja mesmo o som de cada infância possível.

Paulo Roberto Pires