Adriana explica às crianças
Correio Brasil - Portugal 06/2004
Dez anos depois, Calcanhotto regressa a um velho projecto em que é Partimpim, a sua versão para crianças. E faz perguntas. Muitas. Sem respostas, porque ela só quer mesmo armar confusão.
Correio: A idéia de fazer este disco começou há algum tempo...
Adriana Calconhoto: Pois é, começei a pensar sobre ele em 94. São dez anos de projecto. Pensar, colectar as canções... Em 99 gravei, não gostei do resultado, entais não lancei o disco, deixei-o numa gaveta e fui fazer outras coisas.
Correio: Porquê um disco para crianças?
AC: Achei que disco para criança talvez fosse uma forma de fazer arranjos mais livres, trabalhando com menos clichês, embora acredite que não trabalho com clichês, não gosto mas eu intuía e estava certa, que seu eu pedisse aos músicos "vamos fazer um disco infantil", eles tocariam com mais liberdade, mais leveza, mais humor, de forma mais lúdica. Isso é uma das coisas bacanas. Outra é que eu acho que existem poucos discos que são feitos com esse nível de acabamento. De uma maneira geral, não é isso que acontece com os discos infantis, são sempre projetos menores, feitos com menos dinheiro, com menos tudo.
Correio: O press que acompanha o disco começa com uma citação de Matisse sobre a liberdade. Alguma vez sentiu o perigo de o sucesso lhe roubar a liberdade?
AC: Esse disco aparece num momento importante da minha trajetória e isso não chegou a se dar, mas eu posso pensar sobre isso em público (risos). Por temperamento, quando saio de um ciclo de trabalho para outro, sinto a necessidade de um esvaziamento. Gosto de esquecer que sou uma artista, esquecer o que fiz, partir.
Correio: Tentar corresponder ao que os outros esperam de nós, distrai-nos do que realmente somos?
AC: Exatamente. É uma boa oportunidade de pensar sobre isso, de discutir, eu tenho pouquíssimoa respostas... Na verdade, de uma forma bem infantil, eu tenho muito mais perguntas do que respostas. E não quero ter as respostas, só quero fazer confusão.
Correio: Você tem um lado muito tímido. Como é que lida com isso?
AC: Já fui muito mais e, por causa disso, fui fazer psicanálise. Acredito que hoje seja um pouco mais social. Era dificílimo para mim cumprimentar estranhos. Começou a se tornar uma coisa complicada mais no trabalho do que na vida pessoal onde as pessoas já sabem isso. Nunca fui tímida no palco, mas depois, quando as pessoas íam falar comigo, começou a parecer uma coisa antipática. Então tive a necessidade de tentar resolver.
Correio: Por outro lado, tem uma capacidade de criar uma intimidade e uma cumplicidade com as pessoas, o que não deixa de ser curioso...
AC: No palco tem uma transformação. Posso ser tudo o que não consigo ser na vida.
Correio: E isso tem a ver com a mudança de cenário?
AC: Acho que sim. O palco me transforma e é muito engraçado. Me lembro da primeira vez que subi num, numa apresentação dessas de colégio, e eu estava como que condicionada, me preparando para me sentir nervosa, porque tinha essa informação: "vou estrear, então eu tenho que estar nervosa". E quando subi no palco foi como se tivesse feito aquilo a vida inteira. É uma sensação que lembro porque ela é, de certa forma, igual à que sinto hoje.
Correio: Surpreendeu-se
AC: Bastante
Correio: As palavras desempenham um papel fundamental no seu trabalho. Começa sempre pelas letras ou a música pode acontecer primeiro
AC: Nunca é igual, até porque não tenho disciplina, nem método. Tenho uma inveja louca de quem tem disciplina. Deixa a vida real me atrapalhar, me impedir. Mas na média, o que acontece é um pouco como o processo de evolução, vem do erro. Se eu estou tocando e de repente me abstraio e começo somente a tocar, aí faço um encadeamento estranho de acordes e a partir daí pode vir uma idéia. Tenho a impressão de que o momento em que me concretizo é uma coisa bem próxima do esqueleto. O que pode ocorrer, e tem ocorrido demais, é que depois desse momento da inauguração, separo, vou lapidando cada coisa em separado e depois junto.
Correio: Tem muitas canções que, suspeito, são autobiográficas. No caso das histórias de amor, não lhe custa voltar ao que já foi?
AC: Quando as canções estão feitas, mesmo que elas sejam muito confessionais, são como colagens de sensações, de sentimentos, de acontecimentos ou de imagens que, às vezes, estão muito próximas de mim, às vezes são imaginárias, às vezes são coladas da situação vizinha, às vezes são roubadas como um flagrante. Por mais pessoal que possa ser, quando vira canção, vira uma coisa que já não é aquilo. É um objeto superior, já é do mundo, das pessoas que quiserem, é dos casais que vêm me dizer "eu ouço a sua canção e é a nossa canção" e tem gente que vem com crianças e dizem ela foi feita enquanto a ouviam... é maravilhoso. Tenho muito cuidado de preservar a esponteneidade para poder voltar a canções que canto dois anos seguidos, todas as noites. Tento evitar o desgaste para nunca chegar à situação de ter que cantar "no piloto automático", tenho de ficar inventando para manter o frescor.
Correio: Não tem nenhum sofrimento nisso, as águas estão sempre bem separadas?
AC: Não. E na verdade tem um rigor. Se eu percebo que determinada canção vai me aborrecer, se não estou com vontade de fazer auqlea canção, então não faço, mesmo que seja um sucesso obrigatório num show e que as pessoas mal compreendam o porquê dessa atitude. É mais leal não fazer, do que fazer sem desejo.
Correio: Vai vestindo personagens, como atores?
AC: Você não pode dizer um texto shakesperianos, fazer o Hamlet, automaticamente. Tenho muita preocupação com isso porque fiz, no início da minha carreira, uma turnê enorme onde fui ligeiramente abusada, tinha shows demais, eu quase não dormia e chegou um momento que aquilo estava excessivo e eu comecei a fazer o show apenas porque tinha que o fazer. Mas o meu desejo não era estar ali. Foram algumas noites em que isso aconteceu, mas me senti tão mal que jamais permiti que me acontecesse de novo. Pode atá haver pessoas que tenham milhares de técnicas para conviver com isso, mas eu não aprendi, não pretendo aprender.
Correio: No seu último álbum Cantada, fez um cover de "Music", de Madonna. AIguma razão especial?
AC: O que me moveu foi a música. Eu acho a Madonna importantíssima, fundamental, necessária. O que ela tem para dizer e a forma como diz. Essa canção, especificamente, me encantou, e na época do lançamento do disco fiquei muito impressionada com a dificuldade que os jornalistas tinham para acreditarem que eu estava cantando uma canção. Eu não estava cantando a persona, estava cantando, a canção, era quase como se não pudessem considerar a Madonna como uma autora.
Correio: Pois é. É dfícil atribuir-Ihe uma identidade. É como se fosse um filme, que de vez em quando passa...
AC: Mas ela é uma compositora interessante. Fora todas as outras coisas onde ela é muito boa. E é muito interessante esse link que você está fazendo, porque essa canção diz que a música junta as pessoas e a música tem que ser partilhada.
Correio: Numa crônica do Publico, o Eduardo Prado Coelho fala da transparência da sua voz: "até a evidência dos veias na vulnerabilidade matinal de um corpo". Tem consciência desse despojamento?
AC: É uma meta no meu trabalbo, embora isso seja o que mais me traz problemas, encrencas e incompreensões. É muito mais fácil cantar com uma máscara de beleza no canto. Já cantei, fiz gravações, totalmente fragilizada, totalmente emocionada, doente, em situações humanas variadas e eu acho que é importante que isso fique impresso na voz. Isso é das coisas mais complicadas que eu armei para a minha vida.
Correio: Porque se expôe demais?
AC: É porque muitas vezes as pessoas rejeitam, preferem o conforte do belo.
Correio: Voltando a este disco, à infância. Correu bem...?
AC: Eu tinha muita pressa. Não via a hora daquilo acabar e poder entrar no mundo dos adultos. Na minha infância achava aquilo muito chato. Eu queria ir embora de casa dos meus pais, ser independente, ser adulta. Tinha uma coisa específica na minha casa que era, "isso não é para criança", "isso não é horário de criança". Eu achei chatíssimo. Não tenho a menor saudade.
Correio: Este disco está cheio de animais, de insectos...
AC: Gosto muito de animais, adoro os bichos. De algum jeito, no contexto de música para criança, ficou mais fácil ter tantos bichos num disco só.
Correio: Os animais são boas metáforas? No caso da Cigarra e da Formiga (Alexandre O'Neill, originalmente cantada por Amália), por exemplo?
AC: É uma coisa maravilhosa porque o enfoque dele é espectacular. Eu adoro Alexandre O'Neill. Eu o descobri e venho descobrindo a obra dele, e essa canção ficou muito importante no disco porque tem Amália, que também estou descobrindo, tem António Chainho, tem o samba, tem a bossa, tem o samba-reggae, tem a cigarra e tem essa maravilha, esse achado, que é isso de "assim devera eu ser, se não fora, não querer". É lindo dizer isso às crianças.
Correio: Tem uma curiosidade notória pelo que se escreve e pelo que se faz em Portugal. Como que é isso lhe chega?
AC: As pessoas vão-me dando coisas. Quando venho a Portugal, venho com duas malas, uma vazia, que volta cheia de livros. A Adília Lopes foi uma descoberta incrível, incrível. Gosto de mergulhar em autores.
Correio: É curioso que tenha falado na Adília Lopes porque ela, tal como a [pintora] Paula Rêgo, que lhe ofereceu a capa para a sua A Obra, têm um universo cruel e infantil.
AC: …pois é…
Correio: Vem muito a Portugal...
AC: Nunca venho além do trabalho. Jamais venho para passear.
Correio: Tem sempre vontade de voltar?
AC: As coisas acontecem. Aqui eu trabalbo de um jeito diferente e me sinto estimulada, desafiada. Não sei explicar... Nao tem estratégia em relação a Portugal. Há o que há.
Correio: E há uma curiosidade?
AC: Muito afectiva.
Correio: Disse numa estrevista que o seu lance é a sedução.
AC: Claro. O lance do palco é sedução.
Correio: O que é que a seduz quando está no palco? Um olhar?
AC: Não é assim tão concreto. É possível, mas na maioria das vezes nem vejo bem as pessoas. Não sei. As coisas relativas ao palco são para mim totalmente inarticuláveis.
Correio: Não há nada de concreto que deseje receber?
AC: É completamente incontrolável, único. Você pode fazer temporadas de três anos, no mesmo espectáculo, sempre com o mesmo alinhamento, e jamais alguma coisa ser parecida com a noite anterior. E muitíssimo intenso.
Correio: Mas não nomeável?
AC: Não nomeável e altamente relativizante. O tempo fica diferente quando estou no palco.
Helena Mascarenhas
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