Calcanhotto Partimpim
Jornal do Brasil 29/07/2004
Cantora muda o sobrenome ao lançar CD com músicas infantis
Adriana Calcanhotto define como “um sonho” o novo álbum, Adriana Partimpim. Seguindo o caminho de Vinicius de Moraes, Toquinho e Chico Buarque, que dedicaram parte das carreiras a música para crianças, agora é ela, uma das revelações femininas dos anos 90, que volta suas atenções para o público infantil. O heterônimo foi criado pela cantora quando tinha apenas 4 anos. Naquela época ainda estava em busca de uma identidade, naturalmente. Quando lhe perguntavam como se chamava, a menina respondia com o sobrenome inventado, Partimpim.
Há dez anos surgiu a idéia de do álbum infantil. Só em 1999 a cantora gravou o disco. Mas não lançou. Ela conta que, mesmo estando quase tudo pronto, ainda faltava “uma camada de tempo” e a finalização do projeto acabou sendo adiada.
- No meio do caminho acabei fazendo dois discos de carreira (Público e Cantada). Mas, assim que terminou a turnê do segundo, recebi uma força do Dé Palmeira para voltar ao projeto do Adriana Partimpim. Retomamos a idéia e mudamos várias coisas em relação ao trabalho de 1999. Logo de cara coloquei a música Fico assim sem você, que tinha ouvido com a dupla Claudinho e Buchecha. Também deu tempo de incluir Saiba, do Arnaldo Antunes – diz a cantora.
Com o pseudônimo, ela busca um certo afastamento da “outra artista” que também é. Não por causa de críticas – seu último disco, aliás, foi bastante elogiado pelo crîtico do JB Tárik de Souza, que usou expressões como “o tropicalismo acabou, Viva Adriana Calcanhotto”, num texto onde dizia que a cantora e compositora “cutuca com rima curta a fera da vanguarda, em pleno império do banal”.
Ela gosta da idéia de não ficar se aprisionando nas coisas que já fez, e por isso também a música infantil foi o território escolhido.
- Imaginei que este seria um gênero musical mais solto, menos visado, menos patrulhado por regras ou conceitos absolutos como são o rock, o pop, a música eletrônica ou o samba de raiz, cheios de comissões julgadoras e rigorosos especialistas – ela diz.
Segundo Adriana Calcanhotto, o que ocorreu foi a opção por um território mais livre, onde não haja puristas. Para ela, a música infantil não tem premissas e por isso o disco não deve ser adjetivado como infantil. Prefere o termo “classificação livre”:
- Não gosto daquele tipo de música infantil que segrega a criança do mundo ao seu redor. A música infantil deve aproximar as crianças dos adultos. Sempre achei generoso da parte dos grandes compositores como Chico, Edu lobo, Toquinho e Vinicius, compor músicas infantis. Isso eleva o nível da produção e faz com que as crianças entrem mais cedo no universo desses compositores. Aí, mais tarde, com certeza, elas voltarão a procurá-los.
Mesmo com o lançamento do novo disco, Adriana não subirá nos palcos nos próximos meses. Após a turnê de quase dois anos do álbum Cantada, ela vai pegar o violão e voltar a compor. Em Adriana Partimpim não existe nenhuma canção de sua autoria. Entre as dez músicas, há, por exemplo, uma de Paula Toller e Dunga, Oito anos, e Borboleta, de Domenico Lancellotti, única feita especialmente para o CD.
O novo disco não terá turnê. É um álbum muito curto, de apenas dez músicas, e para um show precisaria adicionar pelo menos outras dez. Agora o que quero fazer é ler poesia e, de novo, pegar o violão – afirma Adriana.
Paulo Celso Pereira
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