“Partimpim, meu heterónimo”
Revista VISÃO 17/06/2004



A cantora brasileira que caiu no gosto dos portugueses mudou de nome sob os holofotes, e da transformação nasceu um disco para crianças de todas as idades


Carlos Vaz Marques

O pai ainda lhe chama habitualmente Partimpim. A partir de agora já não será só o pai. Adriana Calcanhotto, inspirada por um texto de Matisse, decidiu recomeçar do zero, com uma identidade nova. Assinou um contrato em nome de um heterónimo, pegou em dez canções (não exactamente infantis) e gravou um cd para crianças. O sonho já tinha muitos anos. Chegou a fazer uma primeira tentativa mas não gostou dos resultados. O disco nunca viria a ser editado. Agora, convocando novas e velhas canções (de Amália a Arnaldo Antunes, passando, por exemplo, pela dupla Edu Lobo/Chico Buarque), é Adriana Partimpim quem toma o centro do palco.


VISÃO: O que é que distingue a Adriana Calcanhotto da Adriana Partimpim?
ADRIANA CALCANHOTTO: A semelhança é querer mudar o mundo.


É mais fácil começar pela semelhança do que pela diferença?
É, é mais fácil. Sou Adriana Partimpim quando o meu trabalho é mais lúdico, mais engraçado, mais descomprometido, mais infantil, mais perverso. O mundo infantil é bastante perverso.

Este é o primeiro disco para crianças que edita, mas não é o primeiro que grava.
Não gostei do resultado. A idéia vinha de tentar fazer arranjos menos convencionais, menos preocupados com harmonias correctas, com o certo e o errado em música que é, às vezes, redutor.

Dá-lhe maior liberdade pensar que está a fazer canções para crianças?
Uma coisa muito importante na gravação deste disco foi que, quando os músicos vinham para o estúdio, eu dizia-lhes: isto é um disco para crianças. Obtive deles uma coisa que jamais teria obtido se não o tivesse dito: mais liberdade, mais humor, mais espontaneidade, mais leveza. Coisas que me interessam muito.

As pessoas comportam-se de modo diferente na relação com as crianças?
Completamente. Em se tratando de música “para crianças”, é possível misturar mais géneros.Posso tocar piano atonal no meio de uma canção. Coisas que fiz neste disco. Tenho mais perguntas sobre a classificação deste disco, sobre o género, do que respostas.

Quais são as dúvidas e as eventuais certezas que, entretanto, já conseguiu encontrar neste processo de interrogação?
Na verdade, não são dúvidas. O que o disco quer é fazer perguntas sobre essa questão. Quando eu era criança não me interessava pelas canções feitas para crianças. Não é obrigatório que as crianças se interessem só por canções escritas para crianças.

A que é que quis fugir tentando fugir para a infância com estas canções?
Não quis fugir. Acho que quis encarar o facto de que se faz pouca música de qualidade para crianças. Ou então, quando se fazem bons discos eles não estão no mainstream. O escaninho infantil é muito maltratado. Este não é um disco menor em nada, em termos de produção. É exactamente um disco meu: com os orçamentos, com as pessoas, com a dedicação, com a qualidade técnica, com os estúdios. Tudo, enfim.

Quando diz que é um disco seu está a falar da Adriana Calcanhotto ou da Adriana Partimpim?
Neste momento, agora, aqui, sou Adriana Partimpim.

Onde foi buscar esse seu novo nome: Partimpim?
Perguntavam-me como era o meu nome e eu dizia Adriana Partimpim. Não sei o que é. É um nome que eu inventei em criança.

Ainda hoje não sabe como é que chegou a esse nome?
Nem me lembro de que dizia isso. Sei porque o meu pai o conta e porque, até hoje, séo me chamou Partimpim. Quem fez este disco foi Adriana Partimpim.

É um heterónimo?
Exactamente.

É para lá daquela Adriana que conhecíamos?
É outra, sim.

Então vai mesmo ter de explicar qual é a diferença entre uma e outra, apesar de hea pouco ter preferido falar das semelhanças.
Isto tudo é mais para fazer perguntas do que para dar respostas. Esbarrei na Internet com uma citação de Matisse: ele ficou fascinado quando descobriu que os artistas japoneses do Grande Período – na maioria gravuristas – tinham várias identidades, a que chamavam seus go. Diz que o sucesso é uma prisão e que o artista jamais deve ser prisioneiro de si mesmo, do seu estilo ou do sucesso. Neste caso, trata-se de um heterónimo porque há uma diferença no trabalho, no enfoque, na forma, no resultado. Gosto da idéia de, quando se começa um trabalho novo, zerar. O zero absoluto não eziste mas gosto, de certa forma, da idéia de você se esvaziar e de não se encarar sequer como artista. Desligar-se do passado de alguma forma.

Sente-se como Adriana Calcanhotto, presa por qualquer coisa de que esteja agora a tentar libertar-se?
Não me sinto presa. Mas fiz este trabalho com este go e assinei um contrato com a minha editora como Adriana Partimpim.

Com contrato e tudo?
Sim. Fiz isso antes de me sentir presa.

Quer dizer que vai continuar a gravar como Adriana Partimpim?
A idéia é essa. Sempre foi essa.

Gostava de voltar a ser criança?
Não. sempre que fui criança, eu gostava de ser adulta. Só pensava nisso. Nunca quis ser criança. Nem quando era criança. Achava o mundo dos adultos fascinante. Sobretudo, os horários. Achava que era viver de noite e dormir de manhã.

É o que pratica hoje?
É por isso que fui fazer música. Agora vivo de noite e de manhã dou entrevistas. Não era bem como eu imaginava.

Como é que foi a sua infância?
Era uma criança cheia de opinião.

Uma criança de nariz empinado?
Não era bem de nariz empinado. Era cheia de certezas. Tinha o triplo das certezas que tenho hoje.

Foi uma infância feliz, descontraída?
Não era propriamente só feliz. Acho que o facto de ter sido criada para ser artista, de ter nascido artista, de certa forma, já faz com que se venha com a angústia inerente a isso.

Como é ter sido criada para ser artista?
Há uma coisa que o meu irmão me disse uma vez e que teve enorme impacto em mim: “É engraçado, você foi criada para ser uma artista e nunca ninguém se perguntou se você teria sido artista se não tivesse sido criada nesse ambiente.”

Já se perguntou a si própria se seria uma artista mesmo assim, sem ter tido a educação que teve?
É difícil dizer isso porque o ambiente faz muito. Mas acho que sim. No fundo, algo me diz que sim. Seria uma artista de qualquer forma.

Sentia-se pressionada por essa educação que a queria tornar artista?
Pressionada é exagero, mas em alguns momentos da infância em que preferia estar solta, livre, eu tinha obrigações. Mas acho que qualquer criança se sente assim.

Obrigações de que tipo?
Aulas de piano, de desenho, de História da Arte. Era uma coisa às vezes aborrecida. Com as crianças, há momentos em que a gente quer só ser…

Hoje agradece esse empurrão ou lamenta não ter tido a liberdade de que anda à procura por outras vias?
Na verdade, agradeço. Tenho um sentimento de que foi como tinha que ter sido. Sou filha de artistas. mesmo que não tivesse sido criada para ser uma artista, cresci num ambiente artístico.

Um ambiente de música, de literatura, de artes plásticas: o que é que predominava?
O meu pai era músico, ensaiava em casa com os conjuntos. A minha mãe era bailarina e depois tornou-se coreógrafa e ouvia música em casa. Eu ia aos ensaios e aos espetáculos dela. A minha tia, que era professora de Literatura, sempre me comprou tintas, papéis, cavaletes, pincéis, dava-me livros de História da Arte, levava-me a museus.

Escreveram-lhe um futuro artístico desde pequena.
Acho que sim. Embora, quando lhes disse que ia cantar na noite – que foi onde comecei a carreira -, ninguém tivesse gostado. É uma contradição incrível.

Porque não era uma actividade artística com a elevação suficiente para aquilo que a sua família esperava de si?
Talvez não, mas foi uma experiência importante porque, extramusicalmente, o que me interessava era ter independência. Era mover-me pelas minhas próprias pernas. Queria ganhar o mundo pelas minhas próprias mãos. Como se não tivesse havido todo aquele ambiente.

Chegou a dizer que prefere encarar-se e ser encarada como uma performer. Porquê?
Essa ideeia veio do facto de, quando comecei a cantar, ter vontade de transmitir aqueles textos. A minha primeira ligaçnao com as canções dificilmente é só o som.

Não é exclusivamente musical?
Não é exclusivamente musical e não é principalmente musical. Eu gosto de canções, mas, por exemplo, os meus espetáculos são concertos onde prezo muito a palavra, a música, a coisa cénica, a performance, o figurino. É como se fosse um quebra-cabeças de um formato que eu quero fazer. A coisa mais próxima que vi dessa definição foi do Caetano sobre os shows da Maria Bethânia. Dizia que pareciam filmes de arte que passam todas as noites.

Também quer fazer filmes em palco?
Eu acho que sim.

É uma performer que também canta?
Sim. Sou uma performerque pode cantar. Comigo nunca se passou como com Gal Costa. Já vi entrevistas em que Gal contava que, em criança, punha uma panela muito grande na cabeça para ouvir o som da própria voz. Encantada, hipnotizada pelo som da própria voz. Eu nunca tive esse tipo de relação com a minha.

Gosta de se ouvir?
Às vezes.

Em que circunstâncias? Em disco?
Eu não oiço os meus discos. Quando estou fazendo os discos oiço-os tanto que, depois, não preciso de os ouvir mais. Não sei dizer quando. Li a biografia da Amália, e ela dizia que nas noites em que gostava da voz dela tudo corria bem. Mas havia noites em que não gostava da voz dela. Isso depende de muitas coisas.

Amália também passa pelo seu disco. Sente-semais formiga ou mais cigarra?
É difícil dizer. Não sou igual o tempo todo. Acho que no saldo, mais cigarra.

Como é que lhe aconteceu cruzar-se agora com a Formiga Bossa Nova de Amália, com o poema de Alexandre O”Neill?
Esse cruzamento foi incrível. Foi um poeta meu amigo que me falou dessa gravação. Cantarolou-a e eu fiquei encantada. Ele cantarolou aquilo que a guitarra portuguesa faz na canção, aquelas patinhas de formiga. Foi irresistível para mim.

Ao cruzar-se com a formiga, cruzou-se com Amália. O que é que guardou dela ou o que é que, dela, tentou evitar na sua versão?
Entendi perfeitamente o calvário por que passam as cantoras de fado. É impossível gravar uma coisa que Amália tenha gravado. É alguém de quem é muito difícil livrarmo-nos. É tal a intensidade que ela torna as versões dela definitivas.

Esta sua formiga é mesmo bossa nova, ou tem qualquer coisa de fado à mistura?
Há uma mistura de fado. Tanto que tem a presença do meu amigo António Chainho. É o primeiro registo dos nossos encontros depois de já termos feito várias coisas juntos em palco. Passa um pouco pelo fado, passa um pouco pela bossa nova e passa um pouco pelo samba-reggae que já vem depois.

A que atribui a popularidade que tem em Portugal?
Essas coisas são meio inexplicáveis. Eu gosto até que sejam. Mas acho que as pessoas se identificam com o meu interesse pela palavra. Acho que o público português preza muito a coisa da poesia, a importância dos poetas. Lisboa é uma cidade onde as pessoas sabem viver poesia. Não se trata de ler ou escrever poesia. Trata-se de viver poesia.

E o que é viver poesia?
Viver poesia é como, por exemplo, a vida que Vinicius de Moraes levou. Ele, por acaso, também era um grande poeta que sabia escrever poesia, mas se não a tivesse escrito tê-la-ia vivido de tal forma que isso muda tudo. Muda o mundo, muda as pessoas em redor, muda qualquer um que vá mergulhar na obra dele. É isso que o meu disco (para crianças, mas não só para crianças) pretende.

Ajudar a viver poesia?
Ajudar a abrir uma janela para que as crianças possam desconfiar que é possível viver poesia.


Carlos Vaz Marques