COMO SÓ AS CRIANÇAS SABEM
Jornal PÚBLICO, Suplemento Y 18/06/2004
A primeira sensação, ao ouvir o novo disco de Adriana Calcanhotto (sob um heterónimo herdado de infância, Partimpim) é a de um natural encantamento. Todas as canções soam com absoluta simplicidade mas também com um “savoir faire” que é tudo menos “infantil”, pelo menos no que esta expressão carrega de imerecido menosprezo. Os temas são de comprovado bom gosto, os arranjos são criativos, a voz entrega-se por completo ao projecto. E, no entanto, nenhuma das composições é assinada por Adriana, ao contrário do que é hábito nos seus discos. Como se Partimpim recuasse mesmo até à infância e daí se apropriasse de obra alheia que gostaria de ver sua. A sincopada “Lição de baião”, que Baden gravou em 1961, tem referências ao francês (“Um, deux,/ s’il vous plaît/ montrez ma chérie/ que vous savez dancer”), enquanto “Lig-lig-lig-lé”, marcha carnavalesca de 1937, fala de um modo muito particular da China (segundo Adriana, os autores escreveram-na em homenagem “ao proprietário da grande casa O Mandarim”): “Lá vem o seu china/ na ponta do pé (…)/ dez tões, vinte pratos/ banana e café”. Mas há também pontes para outros universos: a “Canção da falsa tartaruga” leva-nos até ao mundo mágico da Alice de Lewis Carroll, enquanto “Formiga bossa nova” (o original, que Amália gravou no disco “Com Que Voz”, intitulava-se “Formiga bossa nossa”, embora se baseasse num poema de O’Neill chamado “Velha fábula em bossa nova”) viaja até Portugal, ajudada pelo dedilhar da guitarra do convidado António Chaínho.
O disco, porém, não se limita a cruzar referências musicais e geográficas. Há outras, talvez mais importantes neste contexto: as ligações entre pais e filhos. “Oito anos” foi escrita por Paula Toller [dos Kid Abelha] a partir das perguntas que lhe fazia o seu filho Gabriel, aos oito anos, enquanto “Ser de sagitário” foi escrita por Péricles Cavalcanti para um filho ainda por nascer (foi uma filha, Nina, agora já crescida; o namorado dela, Pedro Sá, toca guitarra na faixa a pedido de Adriana). A ligação pai-filho é também consumada noutras duas canções: na “Tartaruga” de Carroll a tradução foi do poeta concretista Augusto de Campos e os arranjos do seu filho, Cid de Campos, que também toca e canta no disco; e na “Lição de Baião” Adriana convidou o filho de Baden, o também violonista Louis Marcel Powell, para tocar com ela. E por falar em pais, Adriana dedica à sua mãe, bailarina e depois coreógrafa, a “Ciranda da bailarina” de Chico Buarque e Edu Lobo.
Como se não bastasse, os músicos foram “cercados” por um coro infantil nalgumas canções e tiveram absoluta liberdade para “voltar à infância”, deixando para trás todos os preconceitos mais “adultos”. Que músicos? Sacha Amback, Celso Fonseca, Marcelo Costa, Pedro Sá, Dé Palmeira, Jorge Hélder, o DJ Bruno Leite e convidados como mestre António Chaínho, Daniel Jobim, Louis Marcel Powell, Cid Campos, Moreno Veloso, Domenino Lancelotti e Kassin (que “toca” Game Boy em “Fico assim sem você”, da dupla Claudinho & Buchecha antes da morte acidental de Claudinho). O resultado foi um disco que está para a infância, no seu natural fascínio, como “Tribalistas” estará para a juventude. Num e noutro, as melodias são simples mas o saber é imenso. Do cruzamento entre ambos resulta um disco para ouvir e reouvir (como “Tribalistas foi, quase até à exaustão). Com alegria ou paixão, repetidamente, como só as crianças sabem.
Nuno Pacheco
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