Arte influenciada por sábias idéias infantis
O Globo 28/07/2004

As pessoas em geral fazem coisas para crianças que as ensine algo. Adriana Partimpim faz, não só para ensinar nada, como para ela própria desaprender: "Minha idéia de fazer um disco para crianças era um pouco como o sentimento que Picasso e Miró tinham: quanto mais você faz uma coisa menos você sabe. O objetivo é saber cada dia menos sobre o que você faz até o ponto que se faça isso de uma forma infantil no sentido da espontaneidade, da falta de coerência."

Cabe aí uma correção: não foi Adriana Partimpim que disse ao GLOBO a reflexiva frase acima. Adriana Partimpim fez apenas o disco que leva seu nome (seria melhor dizer que o disco leva seu heterônimo). Quem disse a frase foi Adriana Calcanhotto, de quem a Partimpim descolou-se como um Álvaro de Campos, um Alberto Caeiro nasceram de Fernando Pessoa.

"Adriana Partimpim é um heterônimo meu, não um pseudônimo. O pseudônimo quer esconder algo, o heterônimo é uma outra persona, com outro trabalho" diz Adriana, a Calcanhotto. "Engraçado que estive agora em Portugal e, quando falava que Partimpim era um heterônimo, eles compreendiam perfeitamente. Estão acostumados com heterônimos."

"Adriana Partimpim" (BMG) vai ser naturalmente conhecido como "o disco infantil de Adriana Calcanhotto". Sutilmente, é outra coisa.

"É um disco de Adriana Partimpim" define. "Pode ser que eu só faça
esse. Mas acho difícil: acho que Adriana Partimpim terá uma discografia paralela a de Adriana Calcanhotto."

Texto apresentado por Waly Salomão inspirou mudança de nome de Adriana

Adriana Partimpim nasceu quando, insatisfeita com o nome dado, a menina Adriana Calcanhotto preferiu ter um nome inventado. O pai dela achou tanta graça que até hoje chama a filha da forma como ela gostaria de ser chamada. Mas a Partimpim assumiu sua persona artística só agora, depois de se deparar, por sugestão do falecido poeta Waly Salomão, com um texto do pintor impressionista Henri Matisse, no qual ele dizia: "O sucesso é uma prisão e o artista jamais deve ser prisioneiro de si mesmo, prisioneiro do estilo, prisioneiro da reputação, prisioneiro do sucesso etc. Não escreveram os irmãos Goncourt que os artistas japoneses do grande período mudavam de nome várias vezes na vida? Amo isso: eles queriam salvaguardar
suas liberdades".

Adriana cita Hokusai, artista japonês da virada dos séculos XVIII para XIX, que usou 40 nomes.

"Eles trocavam de nome cada vez que achassem necessário: um acontecimento artístico, pessoal, um insight , um impacto. O que me interessa no texto do Matisse é a vontade de não acumular nada, reputação, nem boa nem má, de se livrar de tudo e fazer uma outra coisa."

Mas algo Partimpim herdou de Calcanhotto.

" Elas têm coisas em comum" diz Calcanhotto. "Gostam de autores que têm humor, da simplicidade e da depuração que está na escola dos poetas concretos, do Péricles Cavalcanti, do Arnaldo Antunes. Elas têm ligação forte com rádio, do impacto de canções ouvidas no rádio."

Da poesia concreta veio a "Canção da falsa tartaruga", tradução de Augusto de Campos de uma canção do "Alice no país das maravilhas", musicada por seu filho, Cid Campos, e que diz muito da idéia do disco.

"O "Alice", que não era um livro infantil, acabou se tornando um clássico infantil. "diz." Eu me identifico. Quando criança, o que eu mais detestava era me sentir subestimada, sentir-me tratada como criança. Acho que há muitas crianças assim. Não são todas. Há umas que querem ser crianças para o resto da vida, que são oligofrênicas, que se infantilizam. E têm umas outras que são de uma outra tribo. Essas acho que vão se identificar com o disco.
A brincadeira tipicamente concretista contida na tradução de Augusto "Quem não diz: ave!, Quem não diz: eia! Quem não diz: opa! Que bela sopa!", diz sobre a sopa de aveia "a ferver na panela cheia" - é um dos pontos em comum entre as duas Adrianas. A presença de uma canção de Péricles Cavalcanti (compositor que Calcanhotto já disse que gostaria de ser), "Ser de sagitário", é outra. Uma de Arnaldo Antunes, "Saiba", também. As duas são canções de ninar, a primeira feita por Péricles para o nascimento da filha Nina, há mais de 20 anos, mas até agora inédita; a de Arnaldo, uma obra-prima do gênero, a busca de um novo vocabulário para os acalantos, de versos cortantes como "Saiba: todo mundo vai morrer/Presidente, general ou rei/Anglo-saxão ou muçulmano/Todo e qualquer ser humano".

Sucesso de Claudinho e Buchecha já estava no repertório dos shows da cantora

No rádio, Calcanhotto/Partimpim ouviram "Fico assim sem você", funk melody gravado por Claudinho e Buchecha com o tragicamente visionário verso "Buchecha sem Claudinho".

"Um crítico português, não querendo de jeito nenhum me agradar, disse que essa música era infantil. Isso me botou uma pulga atrás da orelha. Aí veio o Dé Palmeira (músico e produtor do disco) e sugeriu que essa música, que já estava no meu repertório, entrasse no disco." Celebra o impacto, raro, de ouvir uma música no rádio e ficar louca, e querer se apropriar dela.

Da infância de Partimpim, veio "Lição de baião", gravada por Baden Powell em 1961, estranha aula da baião que mistura versos em português e francês, a primeira música pela qual se apaixonou. E a marchinha dos anos 30 "Lig-lig-lig-lé", outra não infantil de espírito infantil.

No disco há a sofisticação de "Formiga bossa nova", descoberta no repertório da fadista Amália Rodrigues, um poema de Alexandre O’Neill musicado por Alain Oulman, de versos existencialistas que encantaram Adriana, "Assim devera eu ser/Se não fora/Não querer". E a simplicidade de "Oito anos", Paula Toller dando voz ao seu filho nas perguntas básicas que, segundo Adriana, os adultos param de fazer: "Por que os ossos doem/Enquanto a gente dorme?/Por que os dentes caem?/Por onde os filhos saem?".

Há de inéditas feitas especialmente para o disco, como "Borboleta", de Domenico Lancellotti (que a arranja e executa com seu trio Domenico + 2) à recriação de um clássico infantil, "Ciranda da bailarina", de Edu Lobo e Chico Buarque, cantada para a mãe bailarina da cantora. Escolhas sentimentais de Adriana Partimpim, que encerram um desejo artístico de Adriana Calcanhotto:

"As idéias de simplicidade, de clareza, de ir direto ao ponto" diz, não
se sabe bem, se Partimpim ou Calcanhotto.

Hugo Sukman