Adriana Calcanhotto: a falsa simplicidade da Canta
www.diariodigital.pt 28/06/2003



Ainda antes de se apresentar perante um Coliseu dos Recreios praticamente esgotado, a brasileira Adriana Calcanhotto prometia, com o seu mais recente trabalho, Cantada, um disco simples, despojado de excessos, enfeites, acordes, sobras e outros que tais. Contudo, após o espectáculo que a cantora ofereceu na noite de 23 de Junho, na capital portuguesa, simples é um adjectivo que, em nossa opinião, não se aplica: porque a música de Adriana Calcanhotto engordou, está mais cheia (fruto da introdução da electrónica...), mais moderna... mas tão ou mais sedutora e intimista do que anteriormente.

Contrariamente ao que acontecia no passado, em que a cantora brasileira optava por um espectáculo mais intimista, entre ela, acompanhada do seu violão, e a plateia, em Cantada, Adriana Calcanhotto opta por uma mudança de estilo, tornando-se, realmente, mais simples na estrutura das canções, mas igualmente mais cheia na sonoridade que cria.
Para tal facto muito contribui a decisão de arranjar novos companheiros para a sua viola, os quais, na tourné de Cantada, se traduzem numa aposta assumida nos sons metálicos e eléctricos. Através da introdução de guitarras eléctricas, baixo, teclados e bateria, todos amplificados de forma a que, juntos, se traduzam num elemento de força maior, mais poderoso, de maior impacto.

Reportando ao concerto desta segunda-feira à noite, basta recordar, por exemplo, temas como Justo Agora, Pelos Ares ou o quase irreconhecível hit Vambora, no qual não faltou sequer um ligeiro problema com a guitarra eléctrica da cantora que, no momento de proferir um solo, perdeu por momentos a voz rouca e agressiva, devido a um mau contacto.

Contudo, desengane-se quem esteja a pensar que, com esta rendição ao som electrónico, Adriana Calcanhotto perdeu aquele seu jeito tímido de ser, intimista como poucos (basta recordar o tema Noite...), mas ao mesmo tempo capaz de, com a sua voz suave e infantil até, se fazer ouvir mesmo no meio de uma ruidosa plateia.

A verdade é que o jeito desconcertante da intérprete de Porto Alegre continua lá, bem presente, só que está agora mais à vontade em palco. Já não se trata da Adriana-Calcanhotto-cantora-do-violão-que-passa-o-espectáculo-inteiro-sentada, mas sim de uma nova Adriana que, em Cantada, envereda, inclusive, nos seus concertos, pelo espectáculo cénico.

Como esquecer, por exemplo, Justo Agora, em que Adriana ensaia com o baixista, ex-membro fundador dos Barão Vermelho e produtor musical do espectáculo, alguns passos de tango, com ambos a tocarem ao mesmo tempo? Ou então, o tema Mulher Barbada, em que a cantora coloca uma barba postiça? Ou ainda em Sou Sua, Pelos Ares (V. II) e Maresia, esta última uma canção que integra o genérico de uma novela e que fechou o concerto no Coliseu dos Recreios, com os quatro elementos em palco a terminarem a actuação fazendo o papel de autómatos? E muitos mais exemplos poderiam ser aqui citados...

Quanto ao público presente, que mais uma vez saiu rendido aos encantos da brasileira que gostaria de conseguir ser tão simples, directa e concisa quanto a cantada que ouviu na sua adolescência (uma história que Adriana partilhou com a assistência e que serviu para explicar o porquê do nome do novo do disco), não deixou de mostrar a sua paixão pela menina de Porto Alegre, aplaudindo e manifestando o seu agrado para com a simpatia da compositora.

E se os novos temas conseguiram boa receptividade da parte dos portugueses que praticamente esgotaram o Coliseu, foi nos hits de discos passados, que Adriana voltou (como não poderia deixar de ser...) a entoar, que as manifestações de alegria e contentamento mais se fizeram ouvir. Por exemplo, em Devolva-me, um tema em que público fez questão de cantar juntamente com a brasileira; em Esquadros, mais uma faixa propícia à união de vozes entre o palco e a plateia; ou ainda após os primeiros acordes de Mentiras, mais um momento de emoção conseguido numa altura em que Calcanhotto já atacava as três músicas que compunham o encore.

No final, mesmo sem surpresas de última hora ou alterações ao programa previsto (até na pontualidade Adriana Calcanhotto não falhou!...), o muito público presente no Coliseu dos Recreios abandonava o local visivelmente satisfeito com tudo o que havia ouvido durante cerca de uma hora e 45 minutos de espectáculo, descansado por saber que intérprete/compositora oriunda do outro lado do Atlântico continua igual a si própria... ou seja, musicalmente cativante, atraente, bonita... simples.


Francisco Cruz