Adriana Calcanhotto manda sua cantada básica
www2.expresso2222.terra.com.br 08/10/2002



Antes mesmo do estouro da lounge music, Adriana Calcanhotto já sussurrava melodias calminhas. Bem mais do que cantar, a gaúcha apostou em um estilo de interpretar onde as palavras são ditadas com extrema maciez sobre a música. De uns tempos pra cá, Adriana decidiu ampliar as suas possibilidades musicais em um caminho inverso: a simplicidade. Cada canção é trabalhada buscando a redução sonora e a lapidação de todos os excessos e firulas desnecessárias. Seguindo a filosofia punk dos três acordes com vigor, Adriana busca a perfeição de uma única nota, mesmo contando com acesso a um leque imenso de recursos.

A primeira mostra do seu desenvolvimento foi perder a timidez com o violão e transformá-lo em um parceiro mais constante no palco e no estúdio. O resultado foi o bem-sucedido álbum "Público", que vendeu que nem água, deu provas de que ela é uma artista que mantém a sua regularidade e ainda possui grande carisma – ou você acha que é qualquer uma que sustenta uma turnê de shows lotados se valendo apenas da voz e de um violão? Vale lembrar que o DVD também foi sucesso e nada mais se vê do que Adriana sentadinha, cantando seu repertório e dedilhando seu instrumento. A própria explosão de "Devolva-me" ainda é encarado com surpresa. "Eu nunca esperei que ''Devolva-me'' fosse o sucesso que foi", explica. Agora, despreocupada com cobranças por novos hits e buscando sempre a qualidade, a moça está mais "moderninha" e os sinais dessa fase estão em "Cantada", seu mais recente disco.

A voz doce e aveludada continua a mesma, o violão também ainda é uma companhia inseparável (exceto por "Noite", que é dividida com o piano de Daniel Jobim), mas "Cantada" é muito mais abrangente. Depois da solidão de "Público", Adriana abre as portas do seu novo trabalho para alguns convidados especiais com carta branca para criar. Também são repetidas parcerias que já são tradicionais dentro do trabalho da gaúcha, como Péricles Cavalcanti, Antônio Cícero e Waly Salomão. O resultados são sonoridades artesanais, em que os músicos contribúem com talento e com suas próprias experiências e experimentações musicais e músicas com um gancho no romantismo.

Fazendo jus ao seu título, "Cantada" reserva belíssimas declarações de amor, como "Sou Sua" e "Intimidade (Sou Seu)", poesias em que Péricles Cavalcanti incorpora personagens feminina e masculina; "Se Tudo Pode Acontecer", regravação de Arnaldo Antues; e composições escritas pela própria Adriana, como "Eu Espero", a faixa-título e a homenagem à afilhada Nina que rendeu a singela "Ninar", uma melodia doce e voltada para ouvidos infantis, reforçando o desejo da cantora em gravar um álbum só para crianças. "Eu cheguei a gravar um disco, mas não gostei do resultado final e decidi não usá-lo, mas ainda tenho esse projeto", assegura.

As participações especiais também foram escolhidas a dedo. Os cariocas do Los Hermanos voltam aos temas circenses e fazem a atmosfera musical de "Mulher Barbada", concretizando uma parceria que era desejada por Adriana há algum tempo. "O nosso primeiro encontro foi na Lona Cultural Gilberto Gil em novembro do ano passado e eu sempre quis fazer algo com eles", conta a cantora.

Adriana, que já "comeu Caetano", põe na mesa outra celebridade: Madonna. A cantora gaúcha despe a folia-dançante de "Music" e a reduz ao formato de voz (dueto com Daniel Jobim), violão e piano, mas não omite a origem festiva da canção. "''Music'' é uma canção que eu adoro e vou adorar fazê-la no show", antecipa entusiasmada. Outra musa que rende uma canção nesse disco é a cidade do Rio de Janeiro, que conta com a participação de Moreno Veloso, Kassin, Domenico Lancellotti e Berna Ceppas. Ainda no campo dos recursos eletrônicos, o Bossacucanova monta a ambientação sonora para a Adriana declamar o Carlos Drummond de Andrade em "Jornal de Serviço", outra experimentação no estilo de "Remix Século XX". "O público é interessado em trabalhos de qualidade, em poesia", reflete a artista sobre as inclusões de poemas em seus discos e shows. "Atualmente recebi um convite para publicar algumas letras minha como um livro em Portugal, pela Editora Quasi", revela.

A incursão na literatura não é o único projeto que ela tem em mente. Ainda estão nos planos de Adriana compor trilhas de cinema, se dedicar a uma possível e discreta carreira de atriz (atividade descoberta durante as gravações de "Pelos Ares", seu novo clipe e dirigido por Susana Morais) e a confecção de um DVD com mais seções do que o "Público". "Gostaria de fazer um DVD que fosse mais do que um registro de um show", comenta. Difícil será arranjar tempo para tudo isso, afinal a turnê de "Cantada" começa no próximo dia 16 de outubro e seguirá subindo o Brasil, passando pelo Sul, Sudeste, Nordeste e Norte. Se depender das qualidades desse novo trabalho, será difícil não ceder à cantada de Adriana Calcanhotto.


Douglas Damasceno