Cantada
www.vizzavi.pt 10/10/2002
É esta a sua "cantada": convocar o que é regular para o unir com aquilo que é experimental, juntar o mainstream e o marginal, ou mesmo a canção e a batida da música de dança. Onde ainda há espaço para uma versão transviada de "Music", de Madonna.
Não é difícil aceitar que o álbum "Público", aquele que em Portugal elevou Adriana Calcanhotto ao patamar de estrela, tenha sido uma exigência da sua editora. Depois de quatro discos que não esconderam o talento da autora e compositora mas que também não redundaram em êxitos de vendas, "Público", gravado ao vivo e só com violão, veio resolver e, provavelmente, esclarecer as coisas. "Cantada", o novo disco de Adriana, revela que Adriana Calcanhotto aprendeu a importância dessa eficácia e dessa simplicidade. Porque todo o novo álbum, com pequenas excepções, anda em torno do violão e de, claro está, a voz e as canções de Adriana Calcanhotto.
Seguindo de perto o mote "menos é mais", "Cantada" aponta para a escola do minimalismo, como em "Público" apenas tinha sido ensaiado. As palavras, as sílabas, as notas, os acordes e os sons são reduzidos à sua mais ínfima essência, fazendo com que "Cantada" se tenha transformado num disco de singelas e únicas canções.
A ruptura não torna, porém, a Adriana de "Cantada" numa nova Adriana. Fiel à sua tradição de convocar aquilo que é regular para o unir com aquilo que é experimental, de juntar o mainstream e o marginal, ou mesmo a canção e a batida da música de dança, Adriana volta a apostar na unidade de elementos opostos como forma privilegiada de seduzir. É essa, mais uma vez, a "cantada" de Calcanhotto, agora disposta a assumir-se como alguém capaz de convocar inúmeras referências para compor 15 canções que não perdem a coerência, entre si ou relativamente ao seu passado.
É um disco menos ousado que os seus predecessores, mas capaz de um rigor assinalável relativamente à canção enquanto ente superlativo da música popular brasileira. Ainda que com alguns desequilíbrios, "Cantada" é dos melhores álbuns de Adriana Calcanhotto.
Classificação: 7 / 10
Miguel Francisco Cadete
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