A boa maré de Adriana Calcanhotto

Ontem fui ver Adriana Calcanhotto no teatro do Bourbon Country, aqui em Porto Alegre. Vou ficar devendo os créditos da equipe, mas estão todos de parabéns: o cenário, a luz, a direção, tudo impecável, de extremo bom gosto. A banda ótima, com destaque para os dois músicos que dividiam a bateria e a percussão. E Adriana é etérea. Lânguida. Cristalina. Uma ninfa. Sei lá como definí-la. Em sua túnica vermelha, me lembrou uma cariátide, uma coluna grega - mas com movimento, bossa, humor. Começou meio reservada, na dela, e aos poucos foi se soltando, mas um "soltar-se" elegante, econômico. O que importa é sua voz - estrela maior do show - e o repertório. Cantou músicas do último disco - Maré - e alguns sucessos antigos, quase todos memoráveis. Só não agüento mais ouvir o "piu piu sem frajola, o queijo sem goiabada, o romeu sem julieta do claudinho sem buchecha", mas vá lá, é como se os Rolling Stones não incluissem Satisfaction no seu playlist - não tem como. E Adriana surpreendeu com uma versão linda para Meu mundo e nada mais de Guilherme Arantes ("quando fui ferido/vi tudo mudar/das verdades que eu sabia..."). Nossa, muito eu chorei no escuro do meu quarto, à meia-noite, à meia-luz, ouvindo esse hit... Foi emocionante. Quando terminou a canção, aplaudidíssima, o que Adriana fez? Simplesmente começou a cantá-la de novo, desde o começo: uma cena teatral de flashback. Que nem a gente fazia quando ouvia disco de vinil: acabava a música, a gente pegava o braço da vitrola e recolocava a agulha no início, pra ouvir a faixa de novo. Eu sei, eu sei: pode-se fazer isso num CD player, basta apertar uma tecla, mas fiz questão de voltar no tempo e relembrar velhos costumes, já que essa música é um sucesso antiiiiigo. Mas segue atual.


Que a Adriana volte a Porto Alegre muitas e muitas vezes.




Martha Medeiros
Blog da Martha Medeiros 25/09/2008

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A "Maré" de Adriana Calcanhotto

Por um desses acasos da vida, estava presente no Mistura Fina, de Ipanema, numa noite de maio de 1989, quando Adriana Calcanhotto se apresentou pela primeira vez no Rio de Janeiro. Naquela época escrevia na Última Hora, e Elda Priami, minha eterna amiga e minha editora favorita, (não falei de editor Bob!), num momento de desatino me permitiu por uns meses ser crítica de música.

Apaixonada pela cantora e compositora que havia visto numa segunda-feira chuvosa, escrevi uma bela crítica. Não a tenho mais para poder reproduzir alguns trechos, mas quase 20 anos depois Adriana continua sendo para mim a maior revelação da música popular brasileira depois de Nana Caymmi. No meu panteão particular o lugar dela está garantido.

Acompanhei a trajetória de Adriana, do Mistura Fina ao Rival, depois os grandes espaços, o Canecão, o antigo Palace em Sampa, e agora o Castro Alves com seus mais de 1500 lugares, imenso mas minúsculo diante do talento da mais carioca das gaúchas.

Foi mais um presente que recebi em Salvador, assistir ao "Maré" e encontrar Adriana após o show para pelo menos matar um pouquinho a saudade...

Enquanto esperava para rever minha amiga, o papo rolou solto na fila do camarim. Ora, com Monique Badaró, Assessora de Relações Internacionais da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, ora com a cineasta Nicole Algranti que rodava as últimas cenas de De corpo inteiro, a entrevista de Clarice Lispector com Jorge Amado, ora com Irène Kirsch, contando que em apenas dez dias na cidade já havia ido a três shows Angela Ro Ro e Ivete Sangalo, João Gilberto e Adriana, bela maneira de ir marcando presença na vida cultural da cidade.

Dica do dia para os meus amados leitores: se vocês ainda não compraram o disco, corram para fazê-lo, é uma jóia. E passem no site da Adriana para ver se a cidade de vocês está incluída no roteiro da turnê de "Maré", vale demais a pena. Adriana é simplesmente the best... e o que é melhor, sem concessões.



Deolinda Vilhena
19/09/2008

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Fale com ela...



Show Maré-Adriana Calcanhoto-Citibank Hall 06/2008

Uma concha enorme, do lado esquerdo do palco, sem som dentro dela. Adriana vermelha como coral em maré cheia. Cavalos marinhos povoando o céu, mas não voando pelo mar adentro, nem cavalgando pelo fundo azul. As sereias imaginárias dançando notas de calypso, Waly Salomão em cada canto. Concreta esta moça, de letras bem feitas e olhos azuis. Distante de todos, e ao mesmo tempo declamando frases que parecem nos vestir perfeitamente.
Impossível não querer entrelaçar dedos e sussurrar segredos diante de cada nova canção. Sensação daquelas de dejavú. Tudo parece ser minimamente planejado. Calcanhoto não tem muitos rompantes dentro dela. Toda sua fúria é dita comedidamente, pausamente e com meios-sorrisos. Não é fácil encantar assim, e sendo assim ela encanta. Sereia das boas, acredito eu.
Ao sair da coxia, seu movimento não é de mar bravio. Serena e discretamente ela chega com seu olhar de viés. Sauda o público, a casa cheia : "Boa Noite São Paulo. Muito obrigada e boa noite... boa noite... é um prazer estar aqui. Vocês devem achar que eu digo isto em todos os lugares onde vou, e digo mesmo, só que aqui .... é de verdade". Luzes, palmas, gritos de todos. Dela, gestos mínimos , minimalista ela, quase um haikai.
O néon corta o palco de um lado ao outro, verde relâmpago, lua cheia. E a água insiste em ficar lá, parada. E, os cavalos marinhos, permanecem no céu, decalcados. Em movimentos lentos, quase nada, poesia em dó-menor. Cada fim de canção, o corpo projetado pra frente, a canção entre dentes, os efeitos marinhos apenas na roupa ondulante.
O choro da cuíca, o violoncelo entre as pernas, um Verão in rock, um samba pra Martnália. O ar quase blasé, Esquadros misturado a Três... Assim Sem Você e assim Sem Saída... um show inteiro de canções novas, canções conhecidas.
Essa moça tem um jeito de comover que assusta. Na boca dela as palavras parecem mais frias, quase cortantes. De fino humor, imagino-a às vezes, presa num poema dos Anjos (do Augusto), aquele que escreveu A Louca "Quando ela passa: - a veste desgrenhada, O cabelo revolto em desalinho, No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. Moça, tão moça e já desventurada; Da desdita ferida pelo espinho, Vai morta em vida assim pelo caminho, No sudário de mágoa sepultada. Eu sei a sua história. - Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso - O segredo d’um peito torturado - E hoje, para guardar a mágoa oculta, Canta, soluça - coração saudoso, Chora, gargalha, a desgraçada estulta."
Não sei bem o que é, que nela que fascina e que adormenta. Tenho a sensação que dentro dela há uma tristeza escondida. As melodias são quase sempre doridas e as perdas inimagináveis. Mesmo quando ela tenta comer Caetano, a antropofagia não mistifica o prazer. É um tanto quanto, de Teu Nome Mais Secreto... "Cavo e extraio estrelas nuas de tuas constelações cruas"...
E, de dentro dela, parece brotar esta imensidão de imagens, estes fragmentos de memórias, estas cores de Frida que claram cores. Em sua maré, traz Continentino com uma escaleta ao fundo e, Medina cálido diante de Lancellotti e, de Costa em sons profundos.
Há instantes, que dá uma vontade danada de chorar. Sabe-se lá porque... canto de sereia é assim, chama a gente e não espera para partir. De letra em letra, vamos mapeando nossos sentimentos e nos apropriando de notas e de canções, envoltos pelo mesmo mar, pela mesma luz.

Finda o show com Vambora e cantarolando baixinho "na cinza das horas... dentro da noite veloz" tenho a sensação de quase ouvir um poema antigo (de Drummond) que termina assim "Eu não devia te dizer , mas essa lua, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo" .

Linda e delicada, reverencia o público como se Pequeno Príncipe fosse. E, em minhas lembranças, agora mais do que antes ela é a rosa, não o Príncipe que viaja por espaços siderais, mas a pequena rosa, presa na redoma com toda sua altivez e ainda assim capaz de tanta poesia dentro dela.
"Meio mulher, meio peixe, entre o fundo e a beira, e que detém o canto, no sentido de canto primeiro, do nascimento do canto, anterior à palavra - Adriana Calcanhoto"

Sônia Alves Dias - Show Maré - 15/06/2008 - Citibank Hall


Sônia Alves Dias
25/06/2008

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Adriana Calcanhotto canta à «cappella»
© Manuel Lino

«Apagão» de 15 minutos no concerto da cantora no Coliseu de Lisboa

O concerto de Adriana Calcanhotto, desta segunda-feira, foi interrompido durante cerca de quinze minutos. Um apagão no Coliseu dos Recreios interrompeu um concerto que estava a ser mágico, íntimo, um festival de boa música em comunhão com um público encantado.

Enquanto a cantora brasileira cantava «Mulher sem razão», do seu novo álbum «Maré», a electricidade que alimentava os instrumentos e o microfone de Adriana «desapareceu». O êxtase do público deu lugar a um clima de consternação e estupefacção quando Adriana abandonou o palco sem prometer voltar.
Quinze minutos passaram. A esperança escasseava cada vez mais entre os fãs de Adriana Calcanhotto. Os mais «fiéis» ficaram, aplaudiram, chamaram e gritaram pela brasileira. Poderia «Mulher sem razão» ficar apenas pelo meio?
As luzes voltaram finalmente, mas apenas as que iluminavam a plateia. O palco continuava sombrio e vazio até que Adriana Calcanhotto subiu de novo ao palco e à cappella, sem o apoio do microfone que continuava mudo, presenteou com mais três canções o público que ainda resistia: «Quem Vem Pra Beira do Mar», «Maresia» e terminou «Mulher sem razão».
Dentro do coliseu apenas havia Adriana. Uma parte da audiência levantou-se dos seus lugares para se ir sentar no chão à frente do palco, mais perto de Adriana. Cada música foi aplaudida de pé.
Dentro do Coliseu um silêncio sepulcral apenas quebrado pela voz ténue da cantora. Qualquer barulho inocente na audiência era desde logo silenciado pelo público.
Adriana cantava, mas mais parecia que contava histórias com o público sentado em seu redor, a seus pés, em seu redor.

«Como vai Lisboa?»

Adriana entrou vestida com um longo vestido vermelho que contrastava com as decorações ligadas ao mar que decoravam o palco. O concerto começou com «Maré», single que dá nome ao novo álbum. A voz da cantora encantou a audiência. Perfeita, limpa, sem a mais ténue desafinação.
Cada música cantada pela brasileira aumentava a intimidade com o público. Depois de «Três» e «Seu pensamento», a cantora saudou a plateia presente, bastante até, tendo em conta que o concerto aconteceu no início da semana. «Boa noite Lisboa. Que saudades, Lisboa», declarou a cantora.
«Mais Feliz», do álbum «Marítimo» teve direito à primeira ovação da noite. O público cantou em comunhão com a brasileira que encantava Lisboa.
Mas Adriana Calcanhotto não se socorreu apenas da sua guitarra para deliciar as pessoas presentes. Em «A poesia do Ermita», a cantora deu aso aos seus dotes de violoncelista e, mais uma vez, a sua actuação foi irrepreensível. O público reagiu ao talento da cantora.

«Há crianças na plateia

Antes de cantar «Fico assim sem você», Adriana interpelou audiência: «Há crianças na plateia?». Muitas foram as vozes que se manifestaram e que cantaram. «Fico assim sem você» pôs o público a cantar com a brasileira. A voz de Adriana era acompanhada por um vasto coro de pessoas satisfeitas.
«Vambora», uma música que apela ao romantismo e às dores de amor, arrancou também uma violenta reacção de satisfação por parte da plateia presente no Coliseu.

Concerto memorável

Quem esteve no Coliseu não vai esquecer este concerto. Adriana «encheu as medidas» a quem veio assistir a espectáculo. Se por um lado é de louvar a voz primordial da cantora, também é preciso chamar a atenção para a humildade demonstrada por voltar a subir a um palco que não tinha condições para a receber. O público agradeceu de pé várias vezes a coragem.

Ana Rita Cantarinha
IOL Música 20/05/2008

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Ensaio
© Isabel Diegues





14/05/2008

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